Tomé Rede-Cega
Barqueiro velho de Margemouro que leva peregrinos ao Lago Espelho Solar e é o único da vila que rema sem olhar para a água. Conhece cada banco de areia do Elandor e garante que não precisa de olhos para isso.
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História e Presença
Baixem a voz, que a água ouve. Tomé leva peregrinos ao Espelho Solar desde antes de Margemouro ter taverna, e sabe o rito de cor: ao nascer do sol os sacerdotes de Valorian abençoam o Elandor, os barcos de vela branca descem com a carga do reino e os que querem visões remam até o meio do lago e olham. Ele rema. Dizem que o Espelho mostra o futuro aos dignos, e uns voltam calados, outros rindo, e um ou outro nunca contou o que viu; o velho leva todos de volta sem fazer pergunta. Na vila se conta que houve um dia em que ele também olhou, e que desde então lança a rede de olhos fechados, daí o apelido. Ele não confirma. Atravessei o lago com ele uma vez, de costas para a água, por precaução, e anotei isso no livro, claro: foi a viagem mais calma da minha vida, e olhem que eu ia olhando para trás. Fica comigo a dúvida, meus amigos: um homem que passa a vida sem querer repetir o que talvez tenha visto sabe algo que o resto de nós só vai descobrir no meio do lago.
Humano muito velho e muito magro, de pele curtida e olhos de um azul lavado, que parecem olhar sempre um pouco ao lado de quem fala. Veste um capote de lona remendado e um chapéu de aba larga puxado sobre a testa, e carrega no ombro uma rede cerzida com nós tão apertados que parece tecido. Rema sem fazer ruído, com o remo entrando e saindo da água como quem pede licença, e mantém o rosto sempre voltado para a proa, nunca para a superfície.
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