
Aranha
insectoide
37 PV
Lv.4
Círculo liso de nuvem-petrificada no centro exato de Aetherius, do tamanho de um salão, onde acaba o capim dos Campos Sussurrantes e o resto da ilha parece ter parado de chegar. Sem pedra erguida, sem degrau, sem inscrição: só o chão polido e muito limpo e, perto do meio, um fio fino de cinza, do comprimento de um braço, que o vento não leva. Cheiro de nada em particular, o silêncio de quem acabou de parar de falar e uma luz igual em toda parte.
Círculo liso de nuvem-petrificada no centro exato de Aetherius, do tamanho de um salão, onde acaba o capim dos Campos Sussurrantes e o resto da ilha parece ter parado de chegar. Sem pedra erguida, sem degrau, sem inscrição: só o chão polido e muito limpo e, perto do meio, um fio fino de cinza, do comprimento de um braço, que o vento não leva. Cheiro de nada em particular, o silêncio de quem acabou de parar de falar e uma luz igual em toda parte.
Sentem, mas não se acomodem, que este é o único lugar de Aetherius onde eu não consigo terminar uma frase sem desconfiar dela. Todo mundo em Solaryon sabe onde fica a Clareira, e todo mundo sabe que ali houve alguma coisa. Só não sabem o quê. Um templo, diz um velho. Um trono, diz outro. Uma escola, jura uma fada, e um jardim, insiste o sacerdote, e todos falam com a certeza de quem lembra o próprio nome. Os mapas antigos têm ali um nome, rasurado com tanto cuidado que a rasura virou parte do desenho, e ninguém sabe quem rasurou. Quem entra no círculo esquece, enquanto está lá dentro, o nome de uma coisa pequena: o do cachorro, o da rua onde cresceu, o de uma ferramenta. Recupera tudo ao sair, menos uma palavra, uma só, que nunca volta e que a pessoa, quando percebe, já não sabe dizer qual era. Ninguém anotou. Tentaram: os anjos guardam em Sanctus Arx o Livro das Lembranças, onde cada geração copia o que a anterior lembra, e toda cópia traz a mesma lacuna, no mesmo lugar, do tamanho de uma palavra. Os que cantam de volta nos Campos Sussurrantes dizem que o capim faz igual: a uma braça da beira o coro deixa um espaço, e o campo o repete sem preenchê-lo, como quem respeita um lugar à mesa. Pisei ao lado do fio de cinza e não perguntei. O perigo é pequeno e é de quem entra: sai sem uma coisa e passa a vida procurando nos bolsos. Saí de lá sem uma palavra e não sei qual. Se este texto lhes parecer faltar alguma coisa, a culpa é da Clareira, e eu não tenho como provar.
Resquícios de civilizações antigas com segredos ocultos.